“(Após a vitória) não tenho mais adversário. Tenho que governar para 215 milhões”. (Lula, em pronunciamento pós-vitória)
Como pontuamos na última carta, a vitória de Flávio Bolsonaro não era uma certeza, embora o mercado a precificasse como tal. No fim, a virada se concretizou. O altíssimo engajamento digital da campanha lulista surtiu efeito, as ruas foram tomadas por manifestações, a abstenção cedeu significativamente, e o presidente acabou derrotando a oposição por mais de quatro milhões de votos, garantindo um histórico quarto mandato.
A recuperação pró-Lula ocorreu em todo o território, mas concentrou-se sobretudo nas grandes metrópoles, como a Grande São Paulo e Salvador. De maneira inédita na história recente, a esquerda voltou a ocupar as ruas com uma capilaridade que não se via há anos.
Sentindo-se acuado por um pedido de apreensão de seu passaporte, Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado e deixou o país. O senador cruzou a fronteira com a Argentina e embarcou em um voo para Miami, onde o governo Trump lhe concedeu asilo. De lá, prometeu liderar a resistência. A oposição eleita, no entanto, seguiu outro rumo: a esmagadora maioria aceitou o veredito das urnas. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, reconheceu a legitimidade do pleito e fez um apelo público por pacificação.
O desafio agora é pacificar os mercados. A reeleição instaurou um clima de absoluta incerteza sobre a política econômica, que demanda ajustes urgentes, sobretudo nas variáveis fiscais. Os ativos sofreram fortíssima correção na semana: a curva de juros empinou e o câmbio sofreu forte depreciação. Há uma intensa batalha de narrativas no campo vencedor sobre os rumos da nova gestão. O próximo gatilho será a nomeação do ministro da Fazenda e as sinalizações de seu pronunciamento. O mercado exige ajustes, enquanto o governo ainda calibra se — e quanto — irá ceder. Tomando-se pelo valor de face as declarações do presidente reeleito, o país não enfrenta problemas fiscais e não há correção de rota a fazer. A conferir.

